História verídica

Fato curioso e intrigante aconteceu comigo. O mais estranho, talvez, é que esses fatos ocorrem inesperadamente, uma doce surpresa que o dia nos reserva. Uma doce coincidência...
Afinal, até o momento em que entrei no vagão do trem, indo para faculdade após mais uma jornada de trabalho, nada de diferente ou especial havia ocorrido. O dia era como qualquer outro. Talvez, até aquele instante em que sentei no banco do trem, o dia também fosse comum para o homem de terno sentado à minha frente. Falava no celular, resolvia problemas - problemas de rotina, por certo.
Algo nele acabou chamando minha atenção. Provavelmente seu jeito, além de um tipo de beleza, que não era uma beleza nele em si, mas a minha percepção sua era bela. E olhei para ele. Não sei quanto tempo demorou para ele perceber o que começava a acontecer, mas logo olhou para mim também.
Olhos se encontravam, olhos desviavam.
E o que se passaria na cabeça dele naquele momento? Dúvidas também? Curiosidade? Expectativa? Felicidade?
Como iria eu saber...
E ali estávamos, as estações passando, e os olharem continuavam, insistentes, medrosos. Não se atreviam a se encontrar por mais de um segundo, quando fugiam de susto. Num relance, pude divisar um pequeno sorriso nos seus lábios... E o que significava? O mesmo que o meu significava?
Quem era ele? Seu nome? O que fazia? Era o único de terno naquele trem... No que trabalhava? Para onde estava indo? Quantos anos tinha?
E ali continuávamos, tão pertos um do outro, menos de três passos... Mas ao mesmo tempo, tão longe um do outro... Eram milhas e milhas de distancia, preenchidas por convenções sociais, dúvidas, vergonha, medo, precaução... Um abismo... E de cada lado, por mais que os olhos gritassem, era impossível a comunicação.
Mas... e o que era isso? Ele estava se levantando, enquanto o trem diminuía a sua velocidade, até parar em mais uma estação. Ainda faltava duas para a minha. Será possível que ele iria descer?
Ele dirigiu-se para a porta. Segui-o, sem virar o rosto, pelo canto dos olhos.
Será possível que ele iria descer? O momento iria terminar, ali?
O trem para, ele desce. Anda uns passos na plataforma, mas pára. Percebo que ele olha para dentro do trem. Segundos passam, e ele permanece parado. Até que viro minha cabeça em sua direção. Ele olhava para mim. Nossos olhos se encontram, dessa vez sem fugir. Sua expressão, indescritível. Ambos sabíamos que aquele era o último olhar. Que fazer? Perdemos, perdemos a chance. Que fazer? O abismo era intransponível.
As portas do vagão fecham. O trem arranca. Ele permanece parado, eu me afasto. Afasto. Afasto. Cada vez mais. Tudo o que poderia ter sido, não foi.
Depois da coincidência, de pegar o trem naquele horário, entrar naquele vagão, sentar naquele banco, exatamente na frente do desconhecido, quando isso iria se repetir? Quando eu veria aquela face novamente?
Pelo menos, o momento foi único. E a lembrança daquela troca de olhares, daquela expressão, não vai se perder tão facilmente. E quem sabe, um dia, os caminhos não se cruzem novamente...

Escrito por Felipe às 00h49


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